Aquela pequena cidade interiorana tinha uma criatura extravagante. O homem da montanha, como a população o chamava, já foi o homem de lugar nenhum, muito antes de fazer morada na montanha mais alta daquele lugar. Mas ninguém queria saber dele, pareciam não gostar de sua presença. E ele parecia não se importar. Dia após dia, sozinho naquela montanha, aquele homem permanecia imóvel, meditando. Via o sol se pondo e o mundo a girar, e quem olhava pro topo da montanha, julgavam-no louco. Mas o homem da montanha sabia que os loucos eram aquelas pessoas abaixo dele, pois viviam no mundo da lua, eram idiotas. Aquela montanha, outrora um lugar agradável para famílias organizarem piqueniques, era assombrada por aquele homem. O homem da montanha tinha o sonho de ser livre como um pássaro. Até que um dia, sem mais nem menos, a Mãe Natureza realizou seu sonho. Sem perder tempo, ele sobrevoou as casas da cidade, observou grupos de trabalhadores conversando contentes enquanto iam trabalhar, se infiltrou em bares de quinta categoria, se deliciou nos campos de morango, fez necessidades nas cabeças dos vendedores ambulantes, presenciou acidentes automobilísticos e voou com pipas multicoloridas. Já havia visto de tudo naquela cidade, e decidiu que viajaria pra Índia no dia seguinte. Queria ver os elefantes e os marajás tocando suas cítaras. Mas um menino armado com um estilingue interrompeu o sonho e a vida daquele pássaro com uma pedra, daquelas encontradas em montanhas. E os dias se passaram, sem ninguém se lembrar do homem da montanha, o homem de lugar nenhum, o homem livre como um pássaro.